Permitir-se poesia?

Entregar-se à poesia não é fácil.
É tornar-se (mais) vulnerável, é permitir que ela preencha os espaços vazios ou, mais frequentemente, aumente o buraco negro da dor.
As metáforas, as alegorias, as dores, a identificação, é tudo de uma intensidade sufocante.

Acredito que a poesia tem um momento para nos atingir e, no meu caso, é impossível dissociar esse momento das dores que me afligem.
Porque o amor dói. Porque a perda dói. Porque a vida dói.
Porque a saudade dói e a saudade do que não se tem dói ainda mais.

Hora que Passa

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Jó
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida e escura,
Minh’alma sem amor é cinza e pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!…
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho de água triste…a vida corre…”

Florbela Espanca em Livro de Soror Saudade

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